Morte da rainha | Prólogo


Histórias


Encontrei o prólogo de um conto que comecei a escrever um tempo atrás, se gostarem posto mais.

******************************************************************************************************

Não me lembro bem o nome da cidade, mas lembro de como ela era. Havia restaurantes chiques no centro, lojas caras controladas por belas esposas que precisavam manter a cabeça ocupada enquanto os maridos trabalhavam duro num emprego que odiavam, escolas cheias de estudantes ricos que algum dia iriam para alguma faculdade fazer um curso que não gostavam só para seguir o “legado” da família, a cada bairro tinha um shopping que ficava vazio depois do meio-dia... Mas é claro, não dá para generalizar.

Assim era a cidade em que eu vivia, o equilíbrio perfeito entre o urbano e o verde. Não, eu não morava em Nova York e o verde não era o Central Park. Mas sim, o verde era uma praça. A praça mais linda. Uma fonte no meio, árvores gigantescas que eram verdinhas no verão, alaranjadas no outono, floridas na primavera e cobertas de neve branquinha no inverno.

Crianças brincavam ali e tomavam sorvete depois da escola, o famigerado tempo com os pais... Até parece, eles ficavam o tempo todo no celular enquanto você andava no balanço.

Às vezes, tinha alguns encontros naquele lugar e namoros começavam, o comum de todas essas histórias de amor é que um dia elas chegaram ao fim.

Perfeição era a palavra que definiria esse lugar. Todos eram felizes, ricos, tinham empregos e famílias bonitas.

Na fotografia.

A realidade era caracterizada por pessoas cansadas de trabalhar dia e noite para sustentar uma vida que detestavam e verem que cada dia seus sonhos estavam mais enterrados e mortos. As famílias não eram tão perfeitas, uma hora a esposa e o marido iriam trair o outro, os filhos surtando e se automutilando porque não eram o que os pais queriam que eles fossem.

Todos se conheciam, todos sabiam da vida do outro (ou pensavam que sabiam, fofocas existem em qualquer lugar). Talvez o problema não fosse o lugar, ou a cidade... Talvez o problema fosse as pessoas, o fato de elas acharem que sabiam demais e quererem ser algo, mas enquanto tentavam elas acabavam sendo nada.

Não era perfeição a palavra que iria definir o lugar, mas sim superficialidade. Era tudo tão profundo quanto uma piscina infantil, mas ainda sim, alguns se afogavam nessa piscina.

Porém, algumas famílias eram como oceanos e desse oceano você mal conhecia uma gota. Os segredos que escondiam eram assustadores, você não vai nem querer saber, porque vai querer dormir à noite.

Já temos o cenário, o mais clichê possível. Uma pena, mas não posso mentir e meu trabalho é sempre falar a verdade com os mais sórdidos detalhes.

Principalmente da história mais falada, se mora aqui com certeza já ouviu. Se ficou em casa, viu na TV, ouviu no rádio, viu os tweets, recebeu mensagens e viu no Facebook. Se saiu, viu os cartazes, os jornais e ouviu os comentários.

Começou tudo mais ou menos assim, um dia ensolarado e quente de verão, um dos últimos dias da estação. Logo as aulas voltariam e você veria o tom alaranjado das folhas caindo no asfalto cinzento e frio, a chuva começaria e destruiria os penteados perfeitos.

Eu não a conhecia, só de vista, só os comentários. A garota mais rica da cidade, seus pais tinham várias empresas pelo mundo inteiro. Tinha um irmão quieto que cursava direito na faculdade, por mais que ele odiasse, cumpria o desejo do pai. Talvez por medo ou por ser um bom filho... Não importa. O que importava era ela, a filha mais nova.

Seu nome... Tão incomum na região... Chelsea Gaedrild. Passou as férias em algum lugar na Europa, talvez fosse Suécia ou a Inglaterra... Se quiser saber é só olhar seu Instagram e verá as milhares de fotos.

Para suas amigas e amigos era perfeito, finalmente Chelsea estaria de volta, sorridente cheia de (presentes) novidades para contar. Coitados, mal sabiam eles que ela seria um problema, mas esse problema estava só começando.

O problema começou quando Chelsea fora encontrada morta na sala de estar. Teria sido assassinato ou suicídio? Assassinato, óbvio, por que uma garota tão perfeita iria destruir sua própria vida? Mas se fosse assassinato quem a matou? Se você é odiada por quase todo mundo e amada por tão poucos, seria um crime difícil de resolver.

Seriam tantos motivos...

Uma garota tão odiada poderia ter sido morta nas mãos de qualquer pessoa.

Morte da rainha | Prólogo Morte da rainha | Prólogo Reviewed by Angel Meyer on dezembro 20, 2020 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.